Luiz Roberto Bodstein

Beto já pagava o lanche no caixa quando viu o amigo sentado numa mesa quase escondida no fundo do bar.

 

- E aí, cara! Já tava aí? Não te vi quando entrei!… Beleza?

O olhar que o amigo lhe devolveu dispensou a resposta. A garrafa de gin na mesa e o copo cheio na mão de Kaká disseram o resto.

 

- Três da tarde e você aí chumbado!?… Não vai pegar se você voltar pro escritório desse jeito?… – Kaká continuava com o olhar baixo. A expressão caída. Quando falou parecia ter precisado de muito esforço para fazê-lo:

 

- Não preciso voltar!

- Como assim? Eu vi você chegar de manhã!

- É… O Mansur deixou pra me dizer isso na hora do almoço!

- Te mandou embora? Como foi isso? Ele te disse porque?

- Esse é o ponto. Quando perguntei ele falou que pensou que eu soubesse, já que vinha repetindo para eu rodar um… “pca”, sei lá o que!…

- Pca?… Ah! PDCA, deve ser!

- É. Isso aí! Ele disse que vinha dizendo pra eu rodar o tal do PDCA das coisas que ele me pedia.

- E você? Já tinha tentado isso?

- Sei lá o que é isso, cara? De vez em quando ele jogava esse papo, sim, mas achei que estava me zoando! Sei lá eu o que ele queria dizer com o tal do PDCA!…

- Ele tava querendo que você analisasse a forma como estava tratando as coisas que ele te pedia prá fazer.

- Como que eu ia saber? Ele ficava falando no tal do PDCA e não me falava mais nada!

- E não precisava mesmo, Kaká. Quando ele te falava pra “rodar o PDCA” ele esperava que você analisasse com bastante critério a forma como você estava lidando com o trabalho. Não havia muito pra dizer se ele já havia falado isso outras vezes…

- Eu nem sabia o que era isso!

- Já reparou no quadro de feltro que o Mansur tem atrás da poltrona dele? Notou um desenho que ele nunca tira de lá?

- Uma bola dividida em quatro? Claro? Cansei de ver! Até falei pro pessoal do setor que aquilo devia ser pro Mansur não esquecer da pizza na hora do almoço! Com aquela barriga, deve comer pizza todo dia!…

- Ah, Kaká! Tai o problema. Em vez de você fazer o que ele te avisava você levava o conselho na galhofa!

- Não fiz porque não sabia o que ele queria. E continuo não sabendo! Mas também… Agora não me adianta mais de nada mesmo!…

- Aí que você se engana! Nunca foi tão importante você rodar o seu PDCA como agora.

- Garanto que não vai fazer o Mansur me chamar de novo!

- Concordo, mas pode evitar que você passe por outra dessa de novo, ou não precise nunca mais passar por isso, até…

- Por causa do tal PDCA?

- Exatamente! – Beto tira a caneta do bolso da camisa e abre um guardanapo de papel sobre a mesa.

- Sei que você está bolado com tudo o que aconteceu, mas veja aqui: lembra desse desenho?

- A tal pizza de quatro fatias do Mansur.

- Certo! Se tivesse prestado atenção teria reparado que cada “fatia” tem uma letrinha nela:  P – D – C – A!… Reparou nisso?

- Não! Elas ficam separadas. Nem notei.

- Pois é. Porque são momentos diferentes, mas quando se cumpre cada um na sua hora você faz as coisas como precisam ser feitas!

 

Kaká fez um “ah!” como se esperasse mais uma piada sem pé nem cabeça. Beto prosseguiu:

 

- Funciona assim, cara: você imagina o círculo como um relógio dividido pelas duas linhas que o cortam nas quatro fatias que você imaginou. Uma linha na horizontal – ligando o 12 ao 6, na base do círculo. A outra que sai do 9 e segue até a posição das 3 horas. Tá aí as 4 fatias. Agora é só marcar cada uma com as letras: P – D – C – A no sentido horário, a partir de “meio-dia”, assim… (Beto continua desenhando no guardanapo):

- Tá! E aí? Que que isso tem a ver comigo?

- Tem tudo, Kaká. Tem a ver contigo, comigo e com todo mundo. Até com o que a gente tá fazendo aqui neste momento. Olha só: o significado das letras é o seguinte:  “P” é “planejar”; “D” é “desenvolver”, realizar, ou executar, que diz a mesma coisa; “C” é de “checar”, ou conferir, comparar, etc.; e finalmente o “A” você pode chamar de “ação corretiva”, ou “agir corretivamente”.  Pronto! Taí o PDCA! Ele nada mais é do que cumprir uma seqüência de quatro etapas pra garantir um resultado com 100% de acerto no final.

- Que exagero! 100% de acerto é utopia!

- Que utopia o quê, Kaká. Raciocina comigo: se você planeja o que vai fazer já reduz substancialmente as chances de qualquer coisa sair errado, concorda? Aí você desenvolve seu planejamento, ou seja: coloca ele em prática! Depois que executou, checa tudo o que foi feito, o que nada mais é do que comparar o executado – que é o  “D” – com o que você tinha planejado… Estamos juntos até aqui?

- Acho que sim!

- Pois então: o resultado de sua checagem te leva a dois tipos de conclusão: ou você fez tudo certinho – de acordo com o planejado – ou cometeu algum erro, certo?

- Certo!

- Se errou, o que tem a fazer é corrigir o que fez errado, que é o “A”: agir corretivamente! Não tem jeito de sair diferente, a menos que você cumpriu errado alguma das 4 etapas: planejou sem ter todas as informações que precisava, executou diferente do que havia planejado, checou utilizando parâmetros errados para medir o que fez ou na hora do “A” alterou o que tinha feito certo acreditando que estava corrigindo os erros. Mas se você fez cada uma da forma como tem que ser feita não tem erro: vai chegar ao resultado com 100% de acerto. Faz sentido ou não faz?

- É! Falando assim até que faz! Mas na prática como acontece? Você falou que a gente podia rodar um PDCA até neste exato momento!…

- Ok. Veja só: o PDCA é uma ferramenta que te ajuda no gerenciamento de qualquer processo. Então a primeira pergunta que você tem que fazer é essa: QUAL o processo que vou gerenciar? Ele tem que estar muito claro na sua cabeça para você não “misturar estação”, trocando elementos de processos diferentes. Olha aqui: digamos que o nosso processo agora é esse que estou usando neste exato momento para te explicar o conceito do PDCA. Vou dar o nome de “Explicando o PDCA” pra ele. Tudo bem?

- OK!

- Definido o que quero, inicio com o “Planejamento”. Tenho que reunir tudo o que preciso para chegar ao resultado que desejo.

- …Que é me explicar o PDCA!

- Isso! O meu planejamento então tem de levar em conta que você nunca ouviu falar do assunto. Então é mais fácil desenhar um esquema pra ajudar. Tá aqui o guardanapo, a caneta, e o meu desenho. Agora resta apenas pensar numa maneira simples de explicar.

- Entendi. Você planejou tudo o que precisa para que eu entenda o conceito.

- Exato! E o que estamos fazendo neste momento?

- Bem, você está detalhando tudo usando o desenho, e eu estou acompanhando a explicação. Estamos executando o seu planejamento, acho!

- Perfeito! E então? Está conseguindo acompanhar meu raciocínio? O desenho ajudou a entender cada etapa?

- Sim! Com certeza!

- Então pronto! Acabei de checar se o que planejei e desenvolvi funcionou direito. A checagem nada mais é do que comparar o executado com o planejado, lembra?

- Sim, claro! – o brilho nos olhos de Kaká já não mostravam o mesmo cara “caído” de até há poucos instantes. O PDCA do amigo já estava surtindo efeito nele.

- E se eu dissesse que ainda não entendi aonde você quer chegar?

- Eu teria de levar em conta sua dificuldade e reformular meu planejamento para encontrar uma forma mais fácil de você entender.

- Isso quer dizer que você estaria corrigindo o planejamento.

- Exatamente. Significa que identifiquei o erro na forma como planejei a explicação. Mas poderia ser também que tivesse trocado a ordem das letras no desenho. Aí então o erro estaria na execução. E agora: qual o resultado dessa rodada do nosso PDCA?

- Que você atingiu seu objetivo com 100% de acerto!

- É isso aí, garoto! Foi na mosca!

- Ainda não completei a frase, Beto. Agora tenho certeza de que o Mansur queria que eu gerenciasse melhor a forma como eu desempenhava minha função… Que planejasse com mais critério o meu desempenho, realizasse as tarefas com segurança e checasse os resultados, corrigindo o que não estivesse bem…

- Acha que ele precisaria ter dito mais do que disse quando te lembrava o PDCA?

- Com certeza não! Eu é que tinha que me ligar na coisa…

- Você já está com uma cara diferente da que te encontrei, rsss!

- E sei que você sabe a razão: eu achei que você estava apenas tentando me ajudar a entender o que aconteceu hoje, mas você acaba de me ajudar a entender o que vou fazer de tudo o que acontecer daqui pra frente!  Quando a gente se encontrar de novo você vai saber que estou rodando o PDCA da minha vida pra nunca mais passar por algo assim, pode acreditar!

- Bacana, amigão. Eu sei também que quando a gente assume o PDCA da nossa vida não se precisa mais de amigos para nos tirar de uma mesa de bar. E que tal um café bem forte agora pra acabar de vez com esse resto de porre?

 

Kaká sorriu, enquanto Beto fazia um sinal para o garçon. As palavras, em determinados momentos, deixam de ser necessárias.

 

Luiz Roberto Bodstein

luizroberto@grupopdca.com.br

 

CONSULTOR PDCA; Sócio da AD MODUM Consultoria; Pós-graduado em Docência do Ensino Superior, especialização em Qualidade (Penn State University – EUA) e Planejamento Estratégico e Diagnóstico de Organizações (London Human Resources Institute – Inglaterra) Professor da FUNDAÇÃO GETÚLIO VARGAS para cursos de Administração de Empresas. Consultor do Instituto Brasileiro da Qualidade Nuclear – IBQN para implantação de Gestão pela Qualidade. Consultor pelo SEBRAE NACIONAL para Planejamento Estratégico – Projeto Ideal. Autor de diversos cursos organizacionais, como “Competência para a Gestão de Processos”, “Desenvolvimento Gerencial para a Qualidade”, entre outros, e de vários artigos sobre Desenvolvimento Humano publicados em revistas especializadas em Qualidade e jornais como “O Globo”, “Diário do Comércio” e “Jornal do Brasil”.